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Jogador morto é enterrado sob emoção e protesto em cemitério lotado

No sepultamento de Dyogo Costa Xavier de Brito, 16 anos, realizado na tarde desta terça no Cemitério São Francisco Xavier, no município, familiares acusam policial militar por homicídio

Moradores exibem cartaz de protesto cobrando planejamento em operações policiais na favela durante enterro de adolescente morto na Comunidade da Grota, em Niterói
Moradores exibem cartaz de protesto cobrando planejamento em operações policiais na favela durante enterro de adolescente morto na Comunidade da Grota, em Niterói -
Foi o motorista de ônibus Cristóvão Xavier, de 63 anos, avô do jogador de futebol Dyogo Costa Xavier de Brito, 16 anos, quem apelidou o neto de Dondon - nome do famoso jogador do Andaraí - quando o menino ainda era recém-nascido. Parecia uma visão do futuro que o garoto poderia ter se não tivesse sido morto em uma operação policial na comunidade da Grota, em Niterói, na tarde dessa segunda-feira. No sepultamento de Dyogo, realizado na tarde desta terça no Cemitério São Francisco Xavier, no mesmo município, Cristóvão ainda lembrava as palavras do policial que a família acusa pelo homicídio.

"O policial que atirou em meu neto disse que o garoto era traficante. Só que eu não queria saber dele. Eu queria socorrer meu neto. Eu falei pra ele: 'Caramba, meu neto não é traficante. Meu neto estava indo para Edson Passos, para o América (Futebol Clube) jogar. Dentro da mochila dele deve ter uma chuteira e uma sandália. Mas já era. Já foi", lembrou o avô, que estava dirigindo quando viu o neto caído no chão, alvejado pelas costas.
A avó de Dyogo, Márcia Regina, 58, relatou, segundo soube de testemunhas, que o adolescente chegou a dizer ao policial que era jogador de futebol e que estava indo para o clube, no município de Mesquita, na Baixada Fluminense. Segundo ela, mesmo assim o agente de segurança teria mandado o jovem se virar e atirado.

"Ele falou: 'Sou jogador de futebol, estou indo para o treino lá no Rio. Sou do América'. O cara mandou virar e, quando ele virou, o cara deu um tiro com o fuzil nas costas dele. Pior que não apareceu a chuteira, não apareceu a roupinha dele, a mochilinha dele, nada. Não deixaram o avô dele chegar perto", afirmou a avó. 
Antonio Carlos de Vilaflor Brito, 52, supervisor da base do América Futebol Clube onde Dyogo treinava, conhecia o jovem há quase 5 anos e já foi treinador dele em outros clubes. E classifica como impossível a acusação de que o adolescente fosse suspeito de envolvimento com o crime. "É impossível pelo que conheço do Dyogo. Se você olhar todos os amigos dele com as famílias e os amigos dele, os atletas com quem ele sempre conviveu, vão dizer tudo de melhor dele. É estranho esse preconceito velado que existe, de quem acha que as pessoas que vivem em comunidade não são boas, mas o Dyogo era uma pessoa sensacional", classificou o treinador.

O supervisor do América apostava em Dyogo como um futuro brilhante jogador profissional. "Se eu pudesse apostar, apostaria 99% que ele iria chegar, porque ele tinha força, tinha vontade, era inteligente, tinha virada de bola, era dinâmico. Ele era o 'pitbull' do time. E além de ser muito fiel a todos os amigos", revelou. Treinadores do clube disseram que Dyogo era um dos melhores do time, uma das apostas de futuro entre os rapazes do sub-17.
Os amigos do futebol, que foram ao enterro e se despediram de Dyogo com um grito de guerra da equipe, expressaram em lágrimas a dor pela perda precoce. Poucos conseguiam expressar em palavras o sentimento de enfrentar um trauma como esse no início da vida. Luan Rodrigo, de 16 anos, que jogava com Dondon há 5 anos, estava indo para o treino quando recebeu a notícia. "No momento em que eu li a mensagem não acreditei. Fui perguntando para as pessoas se era verdade. Fiquei em choque, porque eu considerava um irmão da família. Era uma amizade verdadeira, de irmandade. Eu não estava preparado para isso, porque sou novo, tenho 16 anos. Ninguém espera que isso fosse acontecer com uma pessoa próxima a você. Eu chorei muito. Mas a gente vai vencer por ele e vai se tornar jogador por ele", declarou o amigo.
Uma oração entoada aos prantos pela irmã mais nova de Diogo, Sofia, de apenas 7 anos, antes do enterro, fez as centenas de pessoas presentes se emocionaram. "Deus, que cada pessoa que esteja aqui sempre viva bem, que não perca ninguém assim desse jeito. Sempre quando alguém estiver assim bem triste, pega as suas mãozinhas e lava o coração dele. Deus, abençoe quem está aqui é que todos sejam do bem e não sejam do mal, para que não façam coisa errada", orou a menina. Dyogo tinha ainda outros dois irmãos, uma menina de 10 anos e um menino de 11.
Moradores da comunidade da Grota levaram uma faixa direcionada ao 12º Batalhão da PM, onde escreveram: "12º Batalhão de Niterói, está aqui o resultado da operação realizada pelos senhores ontem na comunidade da Grota. Vocês assassinaram o Diogo Coutinho".

"Nós somos moradores da comunidade, mas somos pessoas comuns. Só que a polícia acha que toda pessoa na comunidade que está de forma simples tem ligação com o tráfico de drogas. Como morador, estou falando com indignação. A gente fica preocupado de sair na rua quando tem operação. Isso não é uma operação. Não houve troca de tiro nenhuma. Bandido tinha mesmo, mas bandido tem em tudo quanto é lugar. Mas no momento não tinha nada. Na hora não tinha nada. Operações dessa forma acontecem direto, principalmente em horário de colégio e de manhã cedo quando o pessoal sai para trabalhar", comentou o hoteleiro Leandro José, de 41 anos.

Segundo Leandro, as operações se intensificaram neste ano. "Eu acredito que a diminuição de operações policiais na comunidade reduza um pouco esses conflitos. Geralmente isso só acontece quando a polícia entra na comunidade. Com o governo novo piorou, porque deu voz ao crime", concluiu o morador.
O enterro do adolescente transcorreu nesta tarde com o cemitério lotado. Em seguida, familiares e amigos fizeram uma manifestação na Avenida Rui Barbosa. 
Moradores exibem cartaz de protesto cobrando planejamento em operações policiais na favela durante enterro de adolescente morto na Comunidade da Grota, em Niterói Gustavo Ribeiro/ Agência O DIA
Moradores exibem cartaz de protesto cobrando planejamento em operações policiais na favela durante enterro de adolescente morto na Comunidade da Grota, em Niterói Gustavo Ribeiro/ Agência O DIA